A regra de bolso é esta: compre garantia estendida apenas se o custo dela for menor ou igual à sua “perda esperada” de falha no período coberto — e só depois de aplicar uma margem de segurança.
Eu gosto porque é uma regra que dá para lembrar sem anotações: custo ≤ risco × impacto. Simples.
A regra: o Teste do Ponto de Equilíbrio (Break‑Even)
Defina três variáveis:
W= custo da garantia estendida (em % do preço do produto)p= probabilidade de ocorrer uma falha relevante durante a janela da garantia estendida (em %)R= custo do reparo/substituição que você realmente pagaria se a falha acontecer (em % do preço do produto)
O ponto de equilíbrio é:
Compre se: W ≤ p × R
Passe se: W > p × R
Tradução humana: a garantia só vale a pena quando o “valor médio” das falhas que ela evita é maior do que o que você paga por ela.
Versão segura (a que eu recomendo)
Como p e R são difíceis de estimar e vendedores tendem a empurrar o “pior caso”, use um filtro mais conservador:
Compre apenas se: W ≤ 0,5 × p × R
Esse “0,5” é sua margem contra otimismo, franquias escondidas, exclusões e burocracia. Se não passar nem assim, você está pagando caro por tranquilidade.
Como estimar sem overthinking
Você não precisa de precisão cirúrgica. Você precisa de um chute honesto.
-
Fixe a janela certa: garantia estendida só importa depois da garantia original. Se a cobertura é “+2 anos”, pense no risco especificamente nesses 2 anos.
-
Use faixas para
p:
- Baixo:
p≈ 5–10% (produto simples, poucas partes móveis) - Médio:
p≈ 10–20% (uso intenso, mais complexidade) - Alto:
p≈ 20–35% (histórico ruim, uso pesado, ambiente hostil)
- Simplifique
R:
- Se costuma consertar:
Ré o reparo típico (em % do preço) - Se troca em vez de consertar:
Ré “quanto dói perder o produto” (também em % do preço) - Se a garantia tem trocas fáceis:
Rpode ser alto; se é cheia de exclusões,Rcai
Mini-cenários (com variáveis e percentuais)
Cenário 1: eletrônicos “normais”
W = 18%- Você estima
p = 15%de falha relevante no período extra - Um reparo provável seria
R = 60%
Break‑even: p × R = 15% × 60% = 9%
Como W (18%) > 9%, não passa.
Versão segura piora ainda mais: 0,5 × 9% = 4,5%. Continue sem.
Cenário 2: produto difícil de reparar + impacto alto
W = 12%p = 25%(uso intenso, desgaste esperado)R = 70%(reparo caro ou troca quase inevitável)
Break‑even: 25% × 70% = 17,5%
Como W (12%) ≤ 17,5%, passa no básico.
Versão segura: 0,5 × 17,5% = 8,75% → aqui não passa.
Leitura Bao: só compraria se você realmente valoriza reduzir variabilidade (surpresas) ou se a garantia for simples e “sem pegadinhas”.
Cenário 3: garantia barata, risco moderado
W = 6%p = 12%R = 80%
Break‑even: 12% × 80% = 9,6%
W (6%) ≤ 9,6% → passa.
Versão segura: 0,5 × 9,6% = 4,8% → quase, mas não.
Aqui a decisão vira “qualidade do contrato”: se a cobertura for limpa e o processo for fácil, pode valer; se tiver muitas exclusões, não.
Onde a regra quebra (e por quê)
A regra W ≤ p × R falha quando:
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Você não consegue estimar
pminimamente.
Se você não tem base alguma, o risco vira fantasia. A versão segura ajuda, mas não faz milagre. -
O contrato não cobre o que você acha que cobre.
Exclusões comuns (sem listar marcas): desgaste, uso “indevido”, acessórios, oxidação, bateria, tela, transporte. Se a falha provável fica de fora, seuRreal cai. -
O maior custo é tempo/atrito, não reparo.
Se ficar sem o produto por muito tempo é o que mais pesa, então o “impacto” não é sóR. A regra ainda funciona, mas você precisa refletir isso no seuR(como porcentagem do valor do produto para você). -
Você vai substituir antes do fim da cobertura.
Se a chance de você trocar o produto antes é alta, opefetivo reduz. Garantia comprada para um período que você não vai usar é desperdício.
Pocket-card (para lembrar sem pensar)
Regra: Compre só se
W ≤ p × R(melhor:W ≤ 0,5 × p × R)
Quando usar: Você consegue chutarpeRe a cobertura é clara.
Quando não usar: Muitas exclusões, processo ruim, ou você pode trocar antes do período extra.
Como adaptar: Se o “custo de ficar sem” é alto, aumenteR; se você pode substituir cedo, reduzap.
Erros comuns
- Comparar com o pior caso (“se quebrar, acabou”) e ignorar a probabilidade (
p). - Usar o risco da vida toda do produto, em vez do risco após a garantia original.
- Tratar
Rcomo 100% sempre. Às vezes o reparo real é uma fração, ou você aceitaria uma solução parcial. - Esquecer o atrito do contrato: franquias, prazos, exigências e exclusões reduzem o benefício — por isso a versão segura existe.
- Comprar por ansiedade e chamar de “investimento”. Tranquilidade é válida, mas não confunda com matemática.
A decisão boa é chata: coloque W, estime p e R, aplique a margem de segurança e aceite o resultado. Uma regra simples, aplicada direito, vence a sensação de “talvez eu precise”.

