A pior parte de pagar dois aluguéis não é o dinheiro — é o “e se” que começa a morar na sua cabeça. Eu estou com uma chave nova no bolso, caixas no corredor, e a sensação de que cada notificação do banco pode ser um mini susto. Só que, desta vez, eu não quero atravessar o mês na base da esperança e de café.
Tudo começa com uma decisão que parece simples: “Vou pegar o novo lugar antes do antigo acabar, para mudar com calma.” Em teoria, isso é maturidade. Na prática, é um mês em que duas rendas fixas aparecem na mesma tela, lado a lado, como dois seguranças de boate dizendo: “Sem discutir.”
Eu estou numa terça-feira qualquer, abrindo o aplicativo do banco como quem abre uma porta rangendo. A mudança está toda planejada: internet marcada, van combinada, aquele amigo que promete ajudar e depois some (clássico). O problema é que o “mudar com calma” tem um preço invisível: sobreposição. E a sobreposição não pede licença; ela só chega.
A tensão fica clara quando eu faço o que sempre faço para me acalmar: começo a organizar. Não no sentido bonito de “vou criar uma planilha impecável”, mas no sentido prático de “preciso de um plano que funcione mesmo com cansaço”. Então eu aplico um método simples — porque, honestamente, o mês de dois aluguéis não é hora de inventar um sistema sofisticado.
O plano simples de sobreposição (que eu realmente sigo)
1) Eu desenho o mês como um mapa, não como um desejo.
Em vez de pensar “eu acho que vai dar”, eu separo o mês em três faixas:
- Antes do pagamento duplo (quando ainda dá para ajustar hábitos)
- Semana do impacto (quando os dois aluguéis batem)
- Depois do impacto (quando a vida tenta voltar ao normal, mas ainda tem mudança)
Só isso já muda meu comportamento: eu paro de tratar o mês como uma linha reta e começo a ver onde o tombo acontece.
2) Eu crio três caixas: Essencial, Ajustável, Congelável.
Eu pego meus gastos e jogo em três categorias simples:
- Essencial: o que mantém a vida funcionando (aluguel, contas básicas, mercado realista, transporte).
- Ajustável: dá para reduzir sem virar mártir (delivery, compras por impulso, assinaturas que eu nem lembro por que assinei).
- Congelável: eu pauso sem culpa por um mês (planos anuais que podem esperar, upgrades, “só mais essa coisinha” para o apê novo).
A regra aqui é cruel, mas eficiente: no mês de sobreposição, o “ajustável” vira quase essencialmente… ajustado. E o “congelável” vira gelo mesmo.
3) Eu faço um “orçamento de sobrevivência” por 30 dias.
Eu não tento viver minha melhor vida financeira. Eu tento atravessar o período sem criar um problema maior. Então eu calculo o mínimo honesto para:
- alimentação simples (não “perfeita”),
- transporte,
- contas básicas,
- e uma margem pequena para imprevistos (porque mudança sempre inventa um).
Essa margem é o que impede o roteiro clássico: “economizo demais” → “canso” → “gasto mais do que queria” numa noite de stress.
4) Eu separo custos de mudança como um evento — e paro de fingir que eles não existem.
Mudança é uma festa estranha em que você paga para ficar exausto. Caixa, fita, limpeza, ferramentas, frete, aquela compra inevitável porque o novo lugar precisa de algo básico. Quando eu misturo isso com o “dia a dia”, eu perco a noção do que está acontecendo.
Então eu trato como evento de um mês. Visualmente, na minha cabeça, é uma aba separada. E quando eu vejo assim, a pergunta muda de “por que eu estou gastando tanto?” para “ok, isso é temporário; como eu controlo o tamanho do evento?”
5) Eu escolho uma regra anti-caos: ‘nada novo que crie mensalidade’.
No mês de dois aluguéis, a tentação é comprar conforto: “uma assinatura aqui”, “um serviço ali”, “uma solução rápida”. Só que conforto com recorrência vira uma conta que fica, mesmo quando a sobreposição passa.
Então eu adoto uma regra boba e poderosa: se vira mensalidade, eu não começo agora. Se eu quiser muito, eu anoto e revisito no mês seguinte.
O momento em que eu enxergo o padrão (e mudo o jogo)
No meio disso, eu faço algo que parece pequeno, mas vira a chave: eu começo a acompanhar meus gastos como se eu fosse um observador curioso da minha própria vida. Não para me punir — para entender meus padrões quando estou cansado.
É aqui que um app tipo o Monee entra naturalmente: eu registro, categorizo, e vejo o desenho do meu comportamento aparecendo. E o desenho é bem claro: em semanas de stress, eu gasto mais com “atalhos” — comida pronta, compras rápidas, coisas que prometem paz imediata.
Quando eu vejo isso, eu não penso “sou descontrolado”. Eu penso: “ok, eu compro alívio quando estou no limite.” A partir daí, eu passo a planejar alívio barato: refeições simples já pensadas, pausas, caminhadas, qualquer coisa que não custe “mais do que eu esperava”.
O que acontece no final (e o que eu faria diferente)
A sobreposição passa. Ela sempre passa. O que fica é o aprendizado: o perigo não é pagar dois aluguéis; é tentar fazer isso enquanto vive como se nada tivesse mudado.
Se eu pudesse voltar no tempo, eu faria duas coisas com antecedência:
- Eu reduziria as categorias “ajustáveis” já no mês anterior, para entrar com folga psicológica.
- Eu montaria o “orçamento de sobrevivência” antes de estar no meio das caixas, porque pensar cansado é caro.
Takeaways práticos
- Faça um mapa do mês e marque a “semana do impacto”; planeje em torno dela.
- Use três caixas (Essencial, Ajustável, Congelável) e congele sem drama por 30 dias.
- Crie um “orçamento de sobrevivência” com margem para imprevistos de mudança.
- Trate custos de mudança como evento temporário, não como gasto normal.
- Se você está nessa situação, escolha: reduzir temporariamente o estilo de vida, pausar compromissos que não são vitais, ou simplificar a mudança para diminuir o tamanho do “evento” — qualquer opção é melhor do que improvisar sob pressão.

