O que é a regra do preço por uso
A regra do preço por uso é uma conta pequena para responder a uma pergunta grande: vou mesmo usar isto o suficiente para valer o dinheiro e o espaço?
A ideia é simples:
Preço por uso = preço total ÷ número de usos (reais)
“Uso” pode ser vestir, cozinhar, imprimir, treinar, ler, levar para a faculdade, etc. O objetivo não é acertar um número perfeito. É só trocar o “quero” por um “quanto vou usar, de verdade?”.
E sim: dá para usar esta regra sem transformar a vida numa folha de Excel.
Por que ajuda (especialmente quando estás cansada/o)
Quando a energia está baixa, é fácil cair em dois extremos:
- comprar por impulso para aliviar a cabeça;
- ou entrar em culpa e travar até nas compras necessárias.
A regra do preço por uso é um meio-termo gentil. Ela:
- reduz a ansiedade porque dá um critério concreto;
- ajuda a comparar opções (mesmo quando os preços parecem parecidos);
- protege o teu orçamento de “baratinhos” que acumulam;
- dá permissão para pagar mais quando algo vai ser muito usado.
Não é sobre ser “perfeita/o” com dinheiro. É sobre ter clareza suficiente para um pequeno win.
Como calcular (sem complicar)
1) Define o que conta como “uso”
Escolhe uma frase simples:
- “Um uso = um dia que visto isto fora de casa”
- “Um uso = uma refeição cozinhada”
- “Um uso = uma sessão de estudo sem dor (cadeira/apoio)”
- “Um uso = uma ida à biblioteca com a mochila”
Se for algo que “deverias” usar, mas não usas, conta isso. A regra funciona melhor com honestidade.
2) Estima usos com um número baixo
Em vez de imaginar a tua versão ideal, imagina a tua semana real.
Um atalho que funciona:
- Pouco (quase não uso)
- Médio (uso às vezes)
- Muito (uso quase sempre)
Depois transforma isso em números simples, tipo 10 / 30 / 100 usos. Não precisas de mais.
3) Divide e pergunta: “eu pago isto por cada uso?”
O valor final vira uma pergunta prática:
- “Eu pagaria €2 por cada uso desta peça?”
- “Eu pagaria €0,50 por cada refeição que este item me ajuda a fazer?”
Se a resposta for “não”, não é um julgamento. É só informação.
4) Não esquece os “custos invisíveis”
Às vezes o preço por uso parece ótimo, mas o custo real não é só dinheiro. Faz uma pausa de 10 segundos para ver se existe:
- manutenção (lavagem especial, peças, tinta, baterias);
- transporte (carregar, ocupar espaço);
- fricção (é chato de usar, então fica parado).
Se a fricção for alta, os usos reais caem.
Exemplo rápido (sem dramatizar)
Imagina duas opções de garrafa reutilizável:
-
Garrafa A: €12. Achas que vais usar 60 vezes.
Preço por uso ≈ €0,20. -
Garrafa B: €24. Achas que vais usar 200 vezes (porque é confortável, não vaza, vai contigo sempre).
Preço por uso ≈ €0,12.
A B parece “cara” na prateleira, mas pode ser mais barata na vida real se for mesmo usada. A regra não manda comprar a mais cara: só te ajuda a ver o custo por hábito.
Mini-experimentos (2–4) para testar qualquer dia
1) O “teste dos 10 usos”
Antes de comprar, pergunta: consigo listar 10 usos concretos?
Concretos mesmo: “vou usar no caminho para a faculdade”, “nas idas ao mercado”, “na biblioteca”, etc.
Se for difícil chegar a 10 sem inventar, talvez seja um item de fantasia (e tudo bem perceber isso antes de pagar).
2) A comparação “barato vs. certo”
Escolhe duas versões do mesmo tipo de item (por exemplo: casaco, fones, mochila).
Faz a conta do preço por uso para as duas e acrescenta uma pergunta:
- “Qual delas eu pegaria primeiro numa manhã normal?”
Muitas vezes, a resposta é sobre conforto e fricção, não sobre marca.
3) A regra do “já tenho algo que faz 80%?”
Antes de comprar, aponta (numa nota do telemóvel) o que já tens que faz 80% da função.
Depois pergunta:
- “O que exatamente esta compra melhora?”
- “Essa melhoria vira usos reais ou só fica bonita na ideia?”
Se a melhoria não virar comportamento, o preço por uso vai subir.
4) A mini-versão: “emprestar, usar, decidir”
Se dá para testar sem comprar (emprestar, usar uma vez, pedir a uma amiga/o), faz isso.
Depois de um uso real, o teu cérebro fica muito melhor a estimar usos futuros.
Experimenta em 10 minutos
- Pega no teu telemóvel e abre uma nota.
- Escolhe uma compra que estás a considerar (ou algo que compraste e quase não usas).
- Escreve:
- preço total;
- “um uso = …”;
- estimativa baixa de usos (10/30/100).
- Faz a divisão.
- Faz duas perguntas rápidas:
- “Eu pagaria este valor por uso?”
- “O que pode reduzir os usos na vida real?”
Se em 10 minutos fica claro que não vale, ótimo: poupaste dinheiro e energia mental.
Template copiável: decisão por preço por uso
Copia e cola e preenche em 2 minutos:
ITEM:
PREÇO TOTAL (€):
UM USO = (ex.: 1 dia de uso / 1 refeição / 1 ida à faculdade):
USOS REALISTAS (escolhe um): 10 / 30 / 100 / 200
PREÇO POR USO = PREÇO ÷ USOS =
EU PAGARIA ISTO POR USO? (sim / não / talvez)
O QUE PODE BAIXAR OS USOS?
- fricção (pesado, desconfortável, difícil de limpar):
- manutenção (tinta, peças, lavagens especiais):
- “já tenho algo que serve”:
SE EU NÃO COMPRAR, O QUE FAÇO EM VEZ?
- usar o que já tenho:
- emprestar/testar:
- procurar segunda mão:
Um detalhe importante: a regra não decide por ti
Há compras que não são “por uso” e mesmo assim fazem sentido: um presente, algo para uma ocasião específica, um item que resolve um problema de saúde, ou algo que te dá paz mental. Nesses casos, a conta pode ser só um apoio — não uma sentença.
A parte mais útil, para mim, é esta: transformar a pergunta “posso comprar?” em “vou usar?”. Quando a resposta é honesta, o dinheiro começa a trabalhar a teu favor, sem drama e sem culpa.

